Com figurinos que dividem a cena com a atriz e bailarina Patricia Niedermeier, o monólogo Orlando ou um impulso de acompanhar os pássaros até o fim do mundo, dirigido e adaptado da obra de Virgínia Woolf por Alexandre Rudáh, é um espetáculo que atravessa séculos, desde 1.500 até os dias de hoje. Para criar roupas e acessórios que a personagem em transformação veste – ‘Orlando foi homem até os trinta anos, depois despertou-se mulher: uma mulher curiosa e viva, mas sem o hábito de ser uma mulher’ -, Bruno Cezário, bailarino com vinte anos de experiência, recorreu a um trecho do livro da escritora inglesa para representar as organizações do tempo no espetáculo, usando referenciais para enfocar cada época: “…Mas, desgraçadamente, o tempo, que faz florescerem e murcharem animais e vegetais com espantosa pontualidade, não tem sobre a mente humana um efeito tão simples. A mente humana, por seu lado, atua com igual estranheza sobre o corpo do tempo. Uma hora, instalada no estranho elemento do espírito humano, pode ser distendida cinquenta ou cem vezes mais do que a sua medida no relógio; inversamente, uma hora pode ser representada no tempo mental por um segundo…”
Traduzir em roupas as mudanças de tempo, as mudanças de sexo, as mudanças. No livro, no filme e na adaptação, quando muda de sexo Orlando estranha os vestidos e o comportamento feminino. Até se apaixonar novamente, por um homem, e casar-se. ‘Para mim, é onde está a grande virada da personagem, quando ela decide também publicar “O Carvalho”, seu manuscrito de toda a vida’, diz Bruno, que sempre participou da criação do que vestia nos balés que dançou, mas assina pela primeira vez o figurino de um espetáculo. ‘Desta vez, trabalhei com Eduardo Amorim, que colocava minhas ideias nos croquis, e acompanhava junto a mim o trabalho das costureiras, assim como a escolha de materiais. Os sapatos também concebi e mandamos fazer e todos os adereços eu fiz questão de confeccionar especialmente’.
Uma estreia luxuosa. Partindo da Orlando atual, ele conta que desenvolveu o que veio antes: Orlando Homem, jovem, super ativo, como um galo orgulhoso, de preto, calças curtas e bufantes como as de montaria, em couro e seda; Lady Orlando, de roxo e muitos brilhos e tules, que vai a festas badaladas e todos os agitos possíveis; Orlando que se casa (de branco, em veste de tecido simples que lembra papel!) e publica enfim seu “O Carvalho”. ‘Busquei as “memórias” dessa Orlando atual, moderna, independente, que olha para o passado com amor, e que termina a peça de jeans, camiseta branca e saltos brancos, com um Moleskine nas mãos, indicando que ainda escreve’, explica Bruno Cezário.
A proximidade do público com o palco não deixa escapar a qualidade dos acabamentos dos figurinos vestidos por Patricia Niedermeier. ‘Sempre gostei dos detalhes. Da bolsa, dos anéis, colares e pulseiras de Lady Orlando, cuidei minuciosamente como se ela fosse ao Oscar!’, compara. ‘As pedrinhas que brilham na grande saia de tule, que a cada giro vai remetendo ao volume das saias de corte, onde se encontra sempre algo novo, um novo ângulo, uma nova saia. É isso que acho mais importante num figurino, que ele seja vivo, que se movimente’, diz o criador que se diz movido pela paixão.´Como na dança, não consigo fazer nada pela metade: ou tudo ou nada! E me apaixonei pela adaptação do Rudáh e pela incrível Patricia!! Amor à primeira vista!’. Amor e dedicação: ‘ Vou ao teatro uma vez por semana para ver se precisa de algum ajuste. Já lutei muitas vezes com figurino no palco e agora fiz de tudo para facilitar o conforto da atriz no personagem. Para mim, a experiência é como estar em cena’, conclui o artista.